Sinais de TDAH e Autismo em adultos: o que a ciência mostra

Adulto em escritório dividido entre foco e distração com ícones de cérebro, ciência e sintomas ao redor
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Autoria: Denise Costa Ribeiro 

Sinais de TDAH e Autismo em adultos: o que a ciência mostra

Nos últimos anos, a identificação de sinais de Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e Transtorno do Espectro Autista (TEA) na vida adulta tem ganhado destaque tanto nas redes sociais quanto na literatura científica. Esse movimento acompanha uma mudança importante: o reconhecimento de que essas condições não se restringem à infância, mas acompanham o indivíduo ao longo de toda a vida (French et al., 2023).

O TDAH e o TEA são classificados como transtornos do neurodesenvolvimento, caracterizados por início precoce e impacto persistente no funcionamento cognitivo, emocional e social. Estudos indicam que cerca de 5% dos adultos apresentam TDAH e aproximadamente 1% apresentam TEA, evidenciando a relevância dessas condições na população adulta (French et al., 2023; Zaleski et al., 2025).

Além disso, pesquisas populacionais demonstram que uma parcela significativa dos adultos apresenta diagnóstico ou traços dessas condições, frequentemente associados a maior demanda por serviços de saúde (Umeda et al., 2019).

Principais sinais de TDAH em adultos

Na vida adulta, o TDAH tende a se manifestar de forma diferente da infância, com menor evidência de hiperatividade motora e maior predominância de sintomas relacionados à desatenção e às funções executivas.

Entre os principais sinais, destacam-se:

* Dificuldade de manter atenção em tarefas prolongadas;

* Procrastinação e dificuldade de iniciar atividades;

* Desorganização e esquecimentos frequentes;

* Sensação constante de sobrecarga mental;

* Impulsividade em decisões.

Essas manifestações refletem alterações em circuitos relacionados à atenção e ao controle executivo, que persistem ao longo do desenvolvimento (Pehlivanidis et al., 2020).

Principais sinais de autismo em adultos

No caso do TEA, os sinais em adultos podem ser mais sutis e frequentemente compensados ao longo da vida, especialmente em indivíduos com maior capacidade adaptativa. Esse fenômeno é particularmente observado em mulheres, contribuindo para diagnósticos tardios.

Os principais sinais incluem:

* Dificuldades na comunicação social e na reciprocidade emocional

* Preferência por rotinas e previsibilidade;

* Interesses restritos e intensos;

* Alterações sensoriais;

* Exaustão após interações sociais.

Essas características refletem padrões específicos de funcionamento neurocognitivo que impactam a adaptação social (Hours et al., 2022).

Sobreposição entre TDAH e Autismo

Um aspecto central na compreensão dessas condições é a elevada taxa de comorbidade entre TDAH e TEA. Estudos indicam que entre 30% e 70% dos indivíduos com autismo apresentam sintomas de TDAH, o que evidencia uma sobreposição significativa entre os quadros (Rong et al., 2021).

Além disso, essa comorbidade está associada a maior comprometimento funcional e pior qualidade de vida, tornando o diagnóstico diferencial mais complexo e desafiador (Canals et al., 2024).

Por que muitos adultos não são diagnosticados?

Apesar da presença precoce dos sintomas, muitos indivíduos só recebem diagnóstico na vida adulta. Entre os fatores que contribuem para esse cenário, destacam-se:

* Estratégias de compensação e mascaramento ao longo da vida;

* Interpretação dos sintomas como traços de personalidade;

* Falta de reconhecimento de apresentações atípicas;

* Sobreposição com outros transtornos, como ansiedade e depressão.

Esses elementos dificultam o reconhecimento clínico, especialmente quando não há histórico detalhado do desenvolvimento (Hours et al., 2022).

Implicações clínicas

O reconhecimento de sinais de TDAH e autismo em adultos tem impacto direto na prática clínica. A identificação adequada permite:

* Redução do sofrimento psicológico;

* Melhora da qualidade de vida;

* Intervenções mais direcionadas;

* Reorganização da narrativa pessoal do paciente.

Além disso, indivíduos com essas condições apresentam maior risco de comorbidades psiquiátricas, reforçando a importância de uma avaliação abrangente (French et al., 2023).

Considerações finais

A crescente identificação de TDAH e autismo em adultos representa um avanço significativo na compreensão do funcionamento humano. Mais do que estabelecer diagnósticos, trata-se de compreender padrões cognitivos e emocionais, permitindo intervenções mais eficazes e humanizadas.

Nesse contexto, a avaliação neuropsicológica assume papel fundamental ao integrar dados clínicos, históricos e psicométricos na construção do raciocínio clínico.

Referências (APA)

Canals, J., et al. (2024). Prevalence of comorbidity of autism and ADHD. Autism Research.

French, B., et al. (2023). Risks associated with undiagnosed ADHD and/or autism. Journal of Attention Disorders. https://doi.org/10.1177/10870547231176862

Hours, C., et al. (2022). ASD and ADHD comorbidity: What are we talking about? Frontiers in Psychiatry. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2022.837424

Pehlivanidis, A., et al. (2020). Trait-based dimensions discriminating adults with ADHD and ASD. Brain Sciences.

Rong, Y., et al. (2021). Prevalence of ADHD in autism spectrum disorder: A meta-analysis. Neuroscience & Biobehavioral Reviews.

Umeda, M., et al. (2019). Comorbidity and sociodemographic characteristics of adult ASD/ADHD. World Mental Health Survey.

Zaleski, A. L., et al. (2025). Real-world evaluation of ASD and ADHD prevalence. BMC Health Services Research.

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