Segurança também é cuidado: o que nos ensinam os recentes casos envolvendo crianças com TEA no Brasil

Criança com TEA segurando a mão de um adulto em frente à escola, com ícones de segurança ao redor
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Nas últimas semanas, o Brasil acompanhou com comoção dois episódios envolvendo crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA): uma, que se perdeu e, outra, que caiu do décimo andar de um prédio. Situações diferentes, mas que tocaram em um mesmo ponto essencial: crianças autistas podem apresentar vulnerabilidades específicas em relação à segurança, especialmente quando falamos de ambientes urbanos e domiciliares.

Mais do que buscar culpados, esses acontecimentos nos convidam a uma reflexão necessária: como podemos prevenir riscos e criar contextos mais seguros para crianças neurodivergentes?

Por que crianças com TEA podem estar mais expostas a acidentes?

O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por diferenças na comunicação social, padrões comportamentais restritos ou repetitivos e alterações no processamento sensorial, conforme descrito pelo American Psychiatric Association (2022).

Essas características podem impactar diretamente a percepção de perigo e o comportamento em ambientes cotidianos. Estudos mostram que crianças autistas apresentam maior probabilidade de comportamentos de fuga, impulsividade e dificuldade em avaliar riscos ambientais, o que aumenta significativamente a chance de acidentes quando comparadas a crianças neurotípicas (Anderson et al., 2012; Guan & Li, 2017).

Na prática, isso pode se manifestar por meio de:

• tentativas de sair de casa ou da escola sem aviso

• exploração impulsiva do ambiente

• menor compreensão de limites físicos

• hipersensibilidade sensorial, levando à busca de escape em situações de sobrecarga

Esses comportamentos não são “birra” nem falta de educação. São parte do funcionamento neurológico da criança, e precisam ser considerados no planejamento do cuidado.

Segurança não é exagero. É intervenção.

Para famílias de crianças com TEA, pensar em segurança vai muito além do básico. É parte do processo terapêutico.

Pesquisas indicam que estratégias ambientais simples, como barreiras físicas, rotinas estruturadas e supervisão planejada, reduzem significativamente comportamentos de fuga e risco (Anderson et al., 2012).

Algumas medidas práticas incluem: 

• instalação de telas ou redes de proteção em janelas e sacadas

• travas em portas e portões

• identificação da criança (pulseira, etiqueta na mochila ou cartão com contatos)

• rotinas previsíveis

• supervisão redobrada em ambientes abertos

• planos de emergência combinados com escola, vizinhos e cuidadores

Cada criança é única, por isso, essas estratégias devem ser individualizadas, considerando o perfil sensorial e comportamental do paciente.

O papel da orientação parental e do cuidado integrado

Nenhuma família deveria enfrentar isso sozinha.

A literatura aponta que programas de orientação parental e intervenções comportamentais estruturadas contribuem para reduzir comportamentos de risco e aumentam a segurança da criança no cotidiano (Guan & Li, 2017).

Além disso, o alinhamento entre família, escola e equipe multiprofissional é um fator protetivo importante. Quando há comunicação contínua e organização das informações clínicas, o cuidado deixa de ser fragmentado, e passa a ser verdadeiramente preventivo.

Aqui no Abraço, acreditamos que prevenção também é tratamento.

Apoio, não julgamento

Se seu filho é autista, converse com sua equipe terapêutica sobre um plano de segurança individualizado. Pequenas adaptações no ambiente e na rotina podem prevenir grandes tragédias.

Referências bibliográficas 

American Psychiatric Association. (2022). DSM-5-TR: Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.). APA Publishing.

Anderson, C., Law, J. K., Daniels, A., Rice, C., Mandell, D. S., Hagopian, L., & Law, P. A. (2012). Occurrence and family impact of elopement in children with autism spectrum disorders. Pediatrics, 130(5), 870–877. https://doi.org/10.1542/peds.2012-0762

Guan, J., & Li, G. (2017). Injury mortality in individuals with autism. American Journal of Public Health, 107(5), 791–793. https://doi.org/10.2105/AJPH.2017.303696

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