Estamos vivendo uma “epidemia” de neurodivergência ou aprendendo, finalmente, a reconhecer o que sempre existiu?

Ilustração de pessoas neurodivergentes com cérebros coloridos e diferentes conexões
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Nos últimos anos, especialmente nas redes sociais, tornou-se comum ouvir a pergunta: “Por que agora todo mundo tem TDAH ou autismo?”

A impressão de um aumento repentino de pessoas neurodivergentes gera curiosidade, dúvidas e até desconfiança. Mas será que estamos diante de uma epidemia? Ou estamos, na verdade, vivendo um momento histórico de maior reconhecimento clínico?

Fato é que, hoje, surgiu mais conhecimento sobre o assunto.

Durante décadas, o entendimento sobre o funcionamento neurodiverso esteve limitado a estereótipos restritos, geralmente baseados em manifestações mais evidentes na infância. Crianças com bom desempenho acadêmico, mulheres, adultos funcionalmente adaptados e pessoas com altas habilidades frequentemente ficaram fora do radar diagnóstico (Lai et al., 2015).

Com a evolução da ciência, dos instrumentos de avaliação e dos critérios internacionais, como os descritos no DSM-5-TR e na CID-11, passamos a compreender o neurodesenvolvimento como um espectro amplo, com múltiplas formas de expressão (American Psychiatric Association, 2022; World Health Organization, 2019).

Essa ampliação conceitual trouxe uma mudança fundamental: hoje, reconhecemos que o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o TDAH e outras condições não se apresentam de maneira única, nem obrigatoriamente com prejuízos acadêmicos visíveis. Muitas pessoas desenvolvem estratégias intensas de compensação ao longo da vida, fenômeno conhecido como camuflagem, particularmente frequente em mulheres e adultos com maior repertório cognitivo (Hull et al., 2017).

Embora essas estratégias favoreçam adaptação social aparente, costumam estar associadas a maior sofrimento psicológico, incluindo ansiedade, fadiga emocional e sintomas depressivos (Cage & Troxell-Whitman, 2019).

Outro fator relevante é o papel das redes sociais. Plataformas digitais ampliaram o acesso à informação e possibilitaram que muitas pessoas se reconhecessem em relatos semelhantes aos seus. Esse movimento tem um aspecto positivo, pois reduz estigmas e incentiva a busca por ajuda profissional. No entanto, também apresenta riscos quando conteúdos simplificados passam a substituir avaliação clínica estruturada, favorecendo processos de autodiagnóstico (Lewis, 2023).

Reconhecer traços em si mesmo não equivale a receber um diagnóstico. Do ponto de vista científico, o diagnóstico requer critérios específicos, análise da história do desenvolvimento, avaliação do impacto funcional e, preferencialmente, investigação neuropsicológica abrangente. A presença isolada de características não é suficiente: é necessário compreender o conjunto dos sintomas, sua persistência ao longo do tempo e o grau de prejuízo associado (American Psychiatric Association, 2022).

Estudos epidemiológicos indicam que parte do aumento recente nos diagnósticos está relacionada à ampliação dos critérios, maior capacitação profissional e identificação de perfis anteriormente negligenciados, e não a um crescimento abrupto real da prevalência (Fombonne, 2020).

Assim, o cenário atual reflete principalmente maior acesso à informação qualificada, reconhecimento de apresentações clínicas mais sutis, redução gradual do estigma, fortalecimento da escuta clínica e avanço das práticas diagnósticas.

Em outras palavras, estamos vivendo uma expansão da consciência coletiva sobre saúde mental e neurodesenvolvimento.

Mais do que perguntar por que existem tantos neurodivergentes agora, talvez devêssemos fazer a seguinte reflexão: quantas pessoas passaram a vida inteira sem compreender por que se sentiam diferentes?

A neurodiversidade sempre existiu. O que mudou foi nossa capacidade de enxergá-la.

Quando esse reconhecimento vem acompanhado de avaliação adequada, intervenção personalizada e acolhimento, ele deixa de ser apenas um rótulo e se transforma em possibilidade concreta de cuidado, autocompreensão e qualidade de vida.

Referências (APA 7ª edição)

American Psychiatric Association. (2022). DSM-5-TR: Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.). APA Publishing.

Cage, E., & Troxell-Whitman, Z. (2019). Understanding the reasons, contexts and costs of camouflaging for autistic adults. Journal of Autism and Developmental Disorders, 49(5), 1899–1911. https://doi.org/10.1007/s10803-018-03878-x

Fombonne, E. (2020). Epidemiological controversies in autism. Swiss Archives of Neurology, Psychiatry and Psychotherapy, 171, w03084. https://doi.org/10.4414/sanp.2020.03084

Hull, L., Petrides, K. V., Allison, C., Smith, P., Baron-Cohen, S., Lai, M. C., & Mandy, W. (2017). “Putting on my best normal”: Social camouflaging in adults with autism spectrum conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, 47(8), 2519–2534. https://doi.org/10.1007/s10803-017-3166-5

Lai, M. C., Lombardo, M. V., Auyeung, B., Chakrabarti, B., & Baron-Cohen, S. (2015). Sex/gender differences and autism: Setting the scene for future research. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 54(1), 11–24. https://doi.org/10.1016/j.jaac.2014.10.003

Lewis, L. F. (2023). Social media and self-diagnosis of autism spectrum disorder: Implications for clinical practice. Autism in Adulthood, 5(1), 3–10. https://doi.org/10.1089/aut.2022.0045

World Health Organization. (2019). International classification of diseases for mortality and morbidity statistics (11th revision). WHO.

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