Mulheres autistas e neurodivergentes: vulnerabilidade ampliada a relacionamentos abusivos e violências

Mulheres neurodivergentes se apoiando e rompendo ciclo de violência
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Mulheres autistas e neurodivergentes: vulnerabilidade ampliada a relacionamentos abusivos e violências

A violência contra a mulher constitui um problema global de saúde pública e de direitos humanos, com estimativas indicando que aproximadamente uma em cada três mulheres já sofreu violência física e/ou sexual ao longo da vida (World Health Organization [WHO], 2024). No entanto, esse cenário torna-se ainda mais crítico quando se consideram grupos em condição de vulnerabilidade acrescida, como mulheres autistas e mulheres com outras neurodivergências, incluindo o transtorno do déficit de atenção/hiperatividade (TDAH).

A literatura científica tem demonstrado de forma consistente que pessoas autistas apresentam maior risco de vitimização interpessoal ao longo da vida, incluindo violência sexual, abuso psicológico, coerção e exploração (Trundle et al., 2022). Entre mulheres autistas, esse risco tende a ser ainda mais elevado, especialmente no que se refere à violência sexual e a relações abusivas (Cazalis et al., 2022). Esses achados indicam que há uma interseção importante entre gênero e neurodivergência, ampliando a exposição a contextos de violência.

É fundamental destacar que essa maior vulnerabilidade não decorre de uma fragilidade intrínseca da mulher autista, mas da interação entre fatores individuais e contextuais. De acordo com Meyer et al. (2022), mulheres com deficiência, incluindo condições do neurodesenvolvimento, enfrentam maior risco de violência devido à combinação entre desigualdades de gênero, capacitismo e barreiras no acesso a informações e redes de proteção. Assim, trata-se de uma vulnerabilidade socialmente construída e não de uma característica individual isolada.

No caso do autismo, um dos fatores frequentemente discutidos na literatura refere-se às dificuldades na interpretação de sinais sociais complexos, especialmente aqueles que envolvem ambiguidade, intenção oculta ou manipulação emocional. Douglas et al. (2023) apontam que adultos autistas frequentemente relatam dificuldades em reconhecer sinais precoces de abuso, bem como em identificar dinâmicas de controle e coerção que se instalam de forma gradual em relacionamentos. Essa dificuldade pode atrasar a percepção de risco e, consequentemente, a interrupção de relações abusivas.

Outro aspecto relevante é o fenômeno do camuflamento social (masking). Estudos indicam que muitas mulheres autistas desenvolvem estratégias de adaptação social baseadas na observação e imitação de comportamentos, frequentemente suprimindo características próprias para obter aceitação (Bargiela et al., 2016; Cook et al., 2021). Embora esse processo possa favorecer a inclusão social em determinados contextos, ele também está associado a maior desgaste emocional, dificuldade de reconhecer limites pessoais e tendência a priorizar a aprovação do outro, mesmo em situações prejudiciais. Além disso, o mascaramento contribui para o subdiagnóstico feminino do autismo, o que priva essas mulheres de compreensão sobre suas próprias necessidades e vulnerabilidades.

A história de exclusão social também desempenha um papel significativo. Muitas mulheres neurodivergentes relatam experiências prévias de rejeição, bullying e isolamento, o que pode intensificar a busca por pertencimento e validação afetiva (Trundle et al., 2022). Nesse contexto, a entrada em um relacionamento pode ser vivida como uma oportunidade rara de conexão, dificultando a identificação de padrões abusivos ou a tomada de decisão para interromper a relação, mesmo diante de sofrimento.

No campo da violência sexual, os dados são particularmente alarmantes. Brown-Lavoie et al. (2014) já apontavam taxas elevadas de vitimização sexual em adultos autistas, e estudos mais recentes reforçam que mulheres autistas apresentam prevalências significativamente superiores às da população geral (Cazalis et al., 2022). Esses resultados sugerem que fatores como dificuldades na leitura de intenções alheias, menor acesso a educação sexual adaptada e contextos de dependência emocional ou social podem aumentar a exposição a situações de risco.

Quando se amplia a análise para outras neurodivergências, o TDAH também se mostra um fator relevante. Guendelman et al. (2016) demonstraram que o TDAH na infância está associado a maior risco de vitimização em relacionamentos íntimos na vida adulta jovem. Revisões mais recentes corroboram que pessoas com TDAH apresentam maior probabilidade de envolvimento em contextos de violência interpessoal, inclusive como vítimas (Arrondo et al., 2023). Em mulheres, características como impulsividade, busca intensa por conexão, dificuldade de regulação emocional e histórico de críticas persistentes podem contribuir para relações instáveis e maior suscetibilidade a dinâmicas abusivas.

Além disso, mulheres neurodivergentes frequentemente enfrentam descrédito em suas narrativas. Podem ser percebidas como excessivamente emocionais, confusas ou pouco confiáveis, o que dificulta o reconhecimento institucional da violência e o acesso a suporte adequado (Meyer et al., 2022). Esse fenômeno contribui para a manutenção de ciclos de revitimização e para o agravamento de quadros de sofrimento psíquico, incluindo ansiedade, depressão e sintomas relacionados ao trauma.

Diante desse cenário, a prevenção da violência contra mulheres neurodivergentes exige abordagens específicas e baseadas em evidências. Programas de educação sexual e relacional adaptados, que abordem explicitamente temas como consentimento, limites, manipulação e sinais de abuso, mostram-se fundamentais (Douglas et al., 2023). Além disso, é essencial fortalecer a autonomia, promover o reconhecimento de sinais de risco e qualificar profissionais da saúde, educação e assistência social para uma escuta sensível e informada.

Em síntese, a maior vulnerabilidade de mulheres autistas e neurodivergentes à violência não deve ser compreendida como uma característica individual, mas como resultado da interação entre fatores neurocognitivos, históricos e sociais. Reconhecer essa complexidade é um passo fundamental para a construção de estratégias de prevenção, cuidado e proteção que sejam, de fato, inclusivas e eficazes.

Referências Bibliográficas

Arrondo, G., et al. (2023). Attention-deficit/hyperactivity disorder as a risk factor for being involved in intimate partner violence and sexual violence: A systematic review. Trauma, Violence, & Abuse.

Bargiela, S., Steward, R., & Mandy, W. (2016). The experiences of late-diagnosed women with autism spectrum conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders.

Brown-Lavoie, S. M., Viecili, M. A., & Weiss, J. A. (2014). Sexual knowledge and victimization in adults with autism spectrum disorders. Journal of Autism and Developmental Disorders.

Cazalis, F., et al. (2022). Evidence that nine autistic women out of ten have been victims of sexual violence. Molecular Autism, 13, 14.

Cook, J., Hull, L., Crane, L., & Mandy, W. (2021). Camouflaging in autistic adults. Autism.

Douglas, S., et al. (2023). Interpersonal victimization in autistic adults. Autism in Adulthood.

Guendelman, M. D., et al. (2016). Childhood ADHD predicts intimate partner victimization. Journal of Abnormal Child Psychology, 44(1), 155–166.

Meyer, S. R., et al. (2022). Violence against women with disabilities. BMC Public Health.

Trundle, G., et al. (2022). Victimisation in autistic individuals: A systematic review. Autism Research.

World Health Organization. (2024). Violence against women.

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