Autoria: Denise Costa Ribeiro
Burnout, cansaço mental e a falsa impressão de TDAH
Nas últimas décadas, observa-se um aumento expressivo na busca por explicações para dificuldades atencionais, esquecimentos frequentes, procrastinação e redução do desempenho cognitivo. Paralelamente, cresce o interesse por diagnósticos de transtornos do neurodesenvolvimento, especialmente o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). No entanto, evidências científicas indicam que parte significativa desses sintomas pode estar associada a condições como estresse crônico, privação de sono e, sobretudo, ao burnout, o que tem gerado um importante desafio no campo do diagnóstico diferencial.
O TDAH é classificado como um transtorno do neurodesenvolvimento, com início na infância e curso persistente ao longo da vida, caracterizado por padrões de desatenção, hiperatividade e impulsividade que causam prejuízo funcional significativo em múltiplos contextos (American Psychiatric Association, 2022). Diferentemente de quadros situacionais, o TDAH envolve alterações consistentes nos circuitos fronto-estriatais e nos sistemas de regulação executiva, com impacto direto sobre o controle inibitório, memória de trabalho e atenção sustentada (Barkley, 2015; Faraone et al., 2015).
Por outro lado, o burnout, definido como uma síndrome ocupacional resultante de estresse crônico não gerenciado, apresenta manifestações cognitivas que frequentemente se sobrepõem às do TDAH, como dificuldade de concentração, lentificação cognitiva e prejuízos na memória (World Health Organization, 2019). Estudos demonstram que o estresse prolongado está associado a níveis elevados de cortisol, os quais impactam negativamente o funcionamento do córtex pré-frontal, região crítica para funções executivas, tomada de decisão e regulação emocional (McEwen & Morrison, 2013). Essa disfunção pode resultar em sintomas que mimetizam quadros atencionais, sem que haja um transtorno neurodesenvolvimental subjacente.
Além disso, a privação de sono, altamente prevalente em contextos de sobrecarga laboral e emocional, também contribui para déficits cognitivos significativos. Evidências indicam que a restrição do sono compromete processos atencionais, memória e velocidade de processamento, podendo simular sintomas típicos de TDAH em adultos (Killgore, 2010). Do mesmo modo, transtornos de ansiedade e depressão frequentemente cursam com prejuízos cognitivos, especialmente em atenção e funções executivas, o que reforça a necessidade de avaliação clínica criteriosa (Rock et al., 2014).
Outro fator relevante é o aumento da exposição a conteúdos simplificados sobre saúde mental em redes sociais, que frequentemente apresentam listas genéricas de sintomas de TDAH, descontextualizadas de critérios diagnósticos formais. Esse fenômeno pode favorecer processos de identificação subjetiva e autodiagnóstico, sem considerar aspectos fundamentais como início precoce dos sintomas, persistência ao longo do tempo e prejuízo funcional significativo (Sibley et al., 2021).
Nesse contexto, o diagnóstico diferencial torna-se essencial. A avaliação neuropsicológica, aliada à anamnese clínica detalhada e à análise longitudinal do funcionamento do indivíduo, permite distinguir entre alterações cognitivas secundárias a fatores ambientais e emocionais e transtornos do neurodesenvolvimento propriamente ditos. A literatura enfatiza que o TDAH exige a presença de sintomas desde a infância, enquanto quadros relacionados ao burnout ou estresse tendem a ter início mais tardio e curso associado a fatores contextuais (American Psychiatric Association, 2022; Barkley, 2015).
Portanto, embora a popularização do tema tenha contribuído para maior conscientização sobre saúde mental, ela também trouxe o risco da banalização diagnóstica. A sobreposição sintomática entre burnout, ansiedade, privação de sono e TDAH exige uma abordagem clínica rigorosa, baseada em evidências científicas e em raciocínio diagnóstico estruturado. Reconhecer essa complexidade é fundamental para evitar diagnósticos equivocados e garantir intervenções adequadas, promovendo, assim, um cuidado em saúde mental mais preciso e ético.
Referências bibliográficas
American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Publishing.
Barkley, R. A. (2015). Attention-deficit hyperactivity disorder: A handbook for diagnosis and treatment (4th ed.). Guilford Press.
Faraone, S. V., Asherson, P., Banaschewski, T., Biederman, J., Buitelaar, J. K., Ramos-Quiroga, J. A., Rohde, L. A., Sonuga-Barke, E. J. S., Tannock, R., & Franke, B. (2015). Attention-deficit/hyperactivity disorder. Nature Reviews Disease Primers, 1, 15020. https://doi.org/10.1038/nrdp.2015.20
Killgore, W. D. S. (2010). Effects of sleep deprivation on cognition. Progress in Brain Research, 185, 105–129. https://doi.org/10.1016/B978-0-444-53702-7.00007-5
McEwen, B. S., & Morrison, J. H. (2013). The brain on stress: vulnerability and plasticity of the prefrontal cortex over the life course. Neuron, 79(1), 16–29. https://doi.org/10.1016/j.neuron.2013.06.028
Rock, P. L., Roiser, J. P., Riedel, W. J., & Blackwell, A. D. (2014). Cognitive impairment in depression: A systematic review and meta-analysis. Psychological Medicine, 44(10), 2029–2040. https://doi.org/10.1017/S0033291713002535
Sibley, M. H., Arnold, L. E., Swanson, J. M., Hechtman, L. T., Kennedy, T. M., Owens, E. B., Molina, B. S. G., Jensen, P. S., Hinshaw, S. P., Roy, A., & Hoza, B. (2021). Variable patterns of remission from ADHD in the multimodal treatment study of ADHD. American Journal of Psychiatry, 178(11), 1049–1061. https://doi.org/10.1176/appi.ajp.2021.20091386
World Health Organization. (2019). Burn-out an “occupational phenomenon”: International Classification of Diseases (ICD-11). WHO.












